31/10/10

No White Clouds




They say  F R E E D O M


is the answer to a question you don't have to ask...


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27/10/10

Sonho

Estou nua, deitada na cama. A palidez do meu hálito contra o negro dos meus lençóis. Os joelhos chegam-me aos pulsos, transparentes, raiados de azul.

Há muito muito tempo, sonhei viver assim. Nua, deitada no solo. A trancar o calor entre as portas da minha carne. De ouvido colado à terra, a ouvir as estações passar.
Sonhei tornar-me rija como uma raiz centenária, cheia de vida e de silêncio. Quis conter a minha vitamina e dividi-la em veias pelo mundo fora.

Mas cresci flor.
Acima da terra.
Com os olhos a queimar ao sol e o caule a curvar-se ao vento.
Sou frágil. Sou uma. Não me consigo propagar num frenesim secreto de amor por debaixo do chão.
Não consigo escrever o meu nascimento através das rochas e da lama.
O meu grito é um mero assobio numa brisa despercebida.

15/10/10

Era Uma Vez

Duas crianças dormiam. Sonhavam que estava a chover.
As gotas de água caíam e mordiam-nas, como dezenas de piranhas. Mas a carne não sangrava. Em vez disso, a pele caía em véus, transparente, até pousar em alguma poça de água no chão.
As crianças sacudiam-se de susto e confusão, vendo o seu corpo despedaçar-se em camadas. A dor era quente e lasciva. As crianças trocavam olhares de intimidade febril.
Por debaixo da pele caída, um novo corpo emergia - dourado e desnorteante, como os olhos de um tigre.
As crianças notaram que as gotas que caíam no chão faziam nascer ervas daninhas. Daquelas que sugam o solo com uma fome de mendigo, e nunca se esgotam de querer.
Passados momentos, as crianças viram-se nuas. Toda a sua pele anterior tinha caído e servia de alimento a outras pequenas histórias. Então, entreolharam-se pela última vez essa noite, e deitaram-se para se amarem até de madrugada. Sobre o verde reluziam os corpos unidos, dilatando-se no silêncio como dois raios de sol.
A chuva tornou-se branda e em breve as ervas daninhas se tornaram lençóis. As crianças acordaram embaladas pelo ar morno da manhã. Abriram os olhos sem se lembrarem do que tinham juntas sonhado. Acotovelaram-se espreguiçando-se longamente. Esfregaram os olhos e observaram-se - este olhar levantou silêncio.
Havia algo escrito por debaixo dos lábios mas as crianças não sabiam ler. Havia algo a romper de dentro dos olhos mas as crianças não conseguiam ver. Restava um sabor de certeza e sangue, que elas conheciam sem terem ainda provado.
Então, como sábios decidiram esperar, sabendo que haviam de cumprir todas as profecias que ainda desconheciam.



Fim




14/10/10

O caminho para casa

É o fim de mais uma tarde. Pelos passeios gelados levito de volta para casa. Sobre mim, as árvores cospem folhas secas à vez, como uma fonte programada de centro comercial. O solene assobio dos subúrbios inunda a minha cabeça, não preciso de fazer nada senão respirar.
As casinhas são todas iguais e estão alinhadas de forma perfeita mas todos sabemos qual é a nossa. Magia.
Passo pela família indiana que mora ao meu lado, eles nunca olham para mim. Uma criança de colo vira a cabeça e engole a infinitude desta rua com os grandes olhos escuros. Nos olhos da criança vejo - a fila de casas alinhadas prolonga-se, regular, até ao fundo, até ao céu. Magia.


Chego à entrada. Tenho uma chave que abre esta porta.
É dourada e suja, como um tesouro desenterrado.

Declans Well



We're half awake,
in a fake empire.
We're half awake,
in a fake empire.

02/10/10

Wash your face in the lake,
you've got a diamond under your skin.


I Sing I Swim - Seabear

01/10/10

Astenia



Tenho medo de me ter perdido das palavras.
Foram elas que me levaram ao mais fundo dos abismos e me deixaram sozinha. Para estudar o mundo e cegar no escuro. Vulnerável às frestas dolorosas de luz.


Nesse abismo fiquei dormente. Fui a primeira a abandonar-me e por isso sei que não devo ressentir-me de ninguém.
Não amar o mundo é não me amar a mim mesma. E reaprender a amar exige uma verdadeira solidão.


Ninguém voltará a intrujar-me com uma versão rasca de amor.
Nem voltarão a matar-me com a força do meu próprio abraço.


Depois de ter ido com elas até ao fim de tudo o que existe, e de ter cumprido todas as provas que havia, as palavras deixaram-me só. Num silêncio que desarma toda a dor e todo o grito.
Era essa a resposta, essa a solução. Sim.
Encontrei o que existe para não ser dito. E ainda assim temo ter-me perdido das palavras. Porquê?
Porque tenho medo?


Sinto que só existo quando o posso escrever.
Para o ler logo a seguir, e saber
estive aqui.

29/08/10

The Prince and The Night


«The prince went slowly through the forest. His beautiful horse was silent. The sky was taking on the color of roses. "Will I be in time?" the prince wondered. He remembered what the magician had told him - "Night is your only enemy."»

Esta Voz

Esta voz diz-me que sorria aos rostos do passado para que eles pensem que sempre me conheceram.
Diz-me para me comportar com decência para que eles me evoquem com benevolência nos seus burburinhos.
Diz-me que baixe a cabeça e peça perdão pelos passos que errei dentro das vidas alheias.
Diz-me que carregue as culpas até ao fim do Universo e seja a última alma a atravessar o Estige.


Esta voz quer-me morta. E sem razão.
Esta voz quer-me submissa. Para poder ser comida.


Mas eu tenho um orgulho que não me deixa sucumbir - por muito deselegante que isso pareça aos olhos dos mais desfavorecidos em imaginação.
Ressuscitei incontáveis vezes, a pão e água salgada, revivendo cada rasteira e cada empurrão. Tenho berros para berrar e segredos para explodir em cima de todos os que juraram guardar os meus. Os que juraram amar os meus.
Vejo-me a sós, apenas com esta voz. A carregar na cabeça todos os olhares maldosos.
Ser mal vista é não ser vista. É nunca ter sido vista. É ser invisível.


Não me importa nada disto. Doendo-me, não me importa. Porque vivo com uma verdade que fala mais alto que todas. Mais baixo e mais alto. No fundo. Como Deus. Como a terra. Como nascer.

Não preciso de tapar os ouvidos.

Esta voz quer-me morta. Sem razão.
Esta voz quer-me submissa. Para poder comer-me.
Pois esta voz que morra à fome.

25/08/10

"An honest man is always in trouble."


Hal Hartley,
in Henry Fool

Goals

Entre o passado e o futuro, entre o real e o irreal, entre o que é certo e o que é errado, o que é belo e o que fere, entre o que se pensa e o que se vê, entre o que se tem e o que se perde, a vida é um mero sonho. Um breve, confuso, assustador, extasiado sonho. Em que nos debatemos sobre o que vamos jantar, se queremos ter filhos, se somos bondosos, se somos capazes, enquanto os segundos passam cada vez mais depressa, numa doce e fútil debandada para o final.

Não regressaremos jamais ao parque, à chuva, ao beijo, ao odor, ao primeiro passo, ao mais grandioso choro, ao agora. Ao aqui.
Mil mortes em cada piscar de olhos. Mil mortes em cada foda vazia. Mil mortes no gesto de apontares o dedo à sandes que queres comprar no cartaz iluminado do café. Mil mortes em ti. No Universo. Mil animais tombados. Mil máquinas desligadas. Mil filmes terminados. Mil luzes apagadas em misteriosos quartos de hotel. Em cada segundo se perece, fatigado, rendido, para sem se notar se renascer no próximo piscar de olhos de alguém.
Como percorrer condignamente o sonho? Como ser capaz de fazer as perguntas, e acreditar nas respostas? Como dar um passeio no parque? Como sentir a chuva?

O que é real? O que é passado? O que está certo? Como ser bondoso? Como ser capaz?!
E como me dispor a sorver a beleza que jorra de todos os poros invisíveis do ar? Com que força? Com que prazer? Com que crença? Para quê?

21/08/10

Menos Mal



Aqui faz frio, mas muito menos.
As ruas inflamam-se a rebentar de desconhecidos. Mas menos mal.
Não existe o rugido ensurdecedor dos olhares entediados. Não me sufoca o medo de chegar a casa. Todas as tardes se prolongam no doce cheiro dos caminhos por terminar.
Aqui, ruas sem fim beijam os meus braços. Já vão longe as promessas enganadoras de abrigo. O meu único abrigo são os meus passos, porque eles não se detêm por ninguém. E AH! Como é bom não ter de esperar! Não volto a esperar. Nunca mais. Não torno a parar.


Uma chuva de luz trespassa-me enquanto caminho veloz. Todos me vêem. Não quero saber.
Que todos me vejam.
Mas ninguém me volta a reter.

26/06/10

First Things First

Sinto-me obrigada a dizer que encontrei o meu lugar para existir. E para ele parto veloz, sem bagagens e sem paragens. Apenas no peito o quente das mãos do meu amor.


Aprendi.


Quando abro os olhos, fecho os olhos.
Quando fecho os olhos, abro os olhos.


Não sentirei a falta de ninguém. Ninguém sentirá a minha falta.
Porque nunca se calaram para me ouvir.
Porque nunca fecharam os olhos para me ver.


Apenas um último som;
Adeus.


09/06/10

Os Oito Versos Para Treinar A Mente, por Geshe Langri Tangpa


Com a determinação de alcançar
O bem supremo de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los com a maior estima.


Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em mim como a mais insignificante de entre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.


Em todos os meus actos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo-me em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.


Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles que são oprimidos por fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de encontrar.


Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a tomar como minha a derrota,
E a eles oferecer a vitória.


Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.


Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem excepção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios directos e indirectos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.


Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenómenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.

05/06/10

Eventualidades



Fomos até à varanda. Eu estava a fumar e ela entretia-se a cheirar os cantos enchuvados das grades. Perguntei-lhe, de súbito

- E só isto?

Ao que ela respondeu insurpreendida

- É só isto.

Desconcertada, desatei a rir

- É mesmo só isto?

E ela tornou, a gargalhar com a língua

- É mesmo só isto!

Caiu o silêncio. Vim eu para dentro, um pouco assustada, enquanto ela se contentou em ficar a ladrar para o vento apaixonadamente.

04/06/10

Live Long

You looked around you, nobody had taken
Any notice of what you saw
Against the evening sky a formation
A million black birds looking like one


Live long
Save ten years to remember.



Quebradiça

Talvez eu possa escrever alguma coisa.


Sim, já estou acordada há cerca de vinte horas, talvez eu consiga escrever.


Já sorvi fumo suficiente, já empatei o suficiente, talvez seja esta a hora.


Não há a porra de um único dia sem estes fantasmas à minha volta. Flutuando gloriosos ao som de coros demoníacos. Esta merda é o Mal. Está aqui mesmo, na minha casa. Na minha cama. Na minha mente. E é traiçoeiro.


Tentei entender porque me faço isto, mas chego sempre ao evidente, sou só humana. E todos amamos sofrer. De uma maneira ou de outra, encontramos maneira de concretizar isso. Invejamos meras “imagens”, sabotamos as coisas que precisamos de obter, procuramos vinganças para acalmar a dor. Sem vermos que nada compensa ou vinga nada, e que tudo, por fim, se complementa.


Devíamos ter mais calma. Na verdade é um bocado só isso. Devíamos parar antes de nos tornarmos numas esponjas andantes que absorvem tudo o que recebem. Devíamos perguntar mais vezes. Devíamos manter-nos mais inocentes. Para não ficarmos a pensar que temos as regras do jogo e nada nos pode surpreender. Estou a ser extremamente abstracta. Foda-se detesto isso acerca de mim. Parto do princípio que anda toda a gente anda a fritar com esta merda como eu. Mas engano-me. Já está tudo tão ambientado. Chega a ser  bonito., como uma exposição de cozinhas. Limpeza. Ordem.


Bem, já escrevi qualquer coisa. Não serve para nada a não ser para eu me rir mais tarde. Como toda a gente ri.


E estou aqui a pensar, detesto a merda dos gajos engravatados. O que raio é uma gravata, de qualquer forma? Para que serve? Alguém tem vergonha de mostrar os botões? Que me poupem. Há limites para a futilidade. É um mero acessório. A futilidade, digo, não as gravatas. Isto não é acerca de gravatas. Estou farta da estabilidade embaraçosa da minha vida caótica. Isto tem tudo que ir.

02/06/10

I had to tell him sometime.
"I believe in God," I said, "and all the rest."
He looked at his beautiful hands; he had those left. He said very slowly, "I don't care what you believe. You can believe the whole silly bag of tricks for all I care. I love you, Sarah."
"I'm sorry" I said.
"I love you more than I hate all that. If I had children by you, I'd let you pervert them."


Excerto de The End Of The Affair, por G. Greene

01/06/10

39ª Levitação

A sólida melodia de um piano ocupava o espaço da sala inteira enquanto as minhas pernas se abriam, conduzidas pelas mãos nos meus joelhos. Lembro-me de assistir a esse momento de fora, vibrando de depravação como um daqueles homens tristes que se escondem atrás de moitas.
Conseguia visualizar tudo, como se visto através de uma cortina rendada ao fundo da sala. Fazia tudo parecer ainda mais vulgar, ainda mais rasca, e isso deixava-me molhada.
Eu estava sentada a abrir as minhas pernas, e estava também escondida, atrás da cortina, a ver. Éramos duas de mim. Mas apenas uma sentia o calor a derreter a pele, a fome insuportável do corpo; a que estava a observar.
O piano roubava o oxigénio todo, enquanto me via soltar os braços e levantar-me, agarrada pelas coxas por umas mãos. Eu ficava suspensa. As mãos puxavam-me consecutivamente contra o outro corpo para me devorar. Por detrás da cortina rendada eu via a carne das minhas coxas por entre os dedos da outra pessoa, como que inchada, cheia de sumo. O meu corpo flutuava sem peso, apenas ligado pela púbis ao corpo desconhecido.


Não havia nada que eu precisasse de fazer, ou dizer, ou pensar. Eu estava lá, atrás da cortina, a sentir tudo, intocada. Sabendo-me demasiado pesada para algum dia levantar os pés do chão.




31/05/10

Ruído


Estou farta dessas malditas perguntas. Não saberão eles que todas as palavras caem no chão? Não perceberam ainda que quando eles falam, tudo o que chega ao destino são meros ecos de voz?, meros fiapos de energia instável?, uma coisa que não toca ninguém, que não belisca ninguém, que não atira ninguém ao chão?
Não terão ainda percebido que todo o som está morto a partir do instante em que nasce? Tal como nós.
Por isso devemos calar, devemos aquietar-nos num acordo não pronunciado. E talvez, eu acredito, se calarmos toda essa morte tirana que nos rasga pela boca fora, se engolirmos todas essas palavras que expelimos como cadáveres a cair de um lugar muito muito alto, nós acabaremos por ouvir. Algo tão poderoso que essas palavras que vomitamos extinguir-se-ão para sempre como mais uma peste histórica.
Mas a parte difícil é esta, só vamos ouvir quando todos estivermos calados. E nem todos concordam, somos um bando conflituoso, fritamos a carne em medo. Precisamos do veneno das palavras tanto quanto tememos ficar a sós com o silêncio.
Essa parte é, alerto, mesmo muito difícil. Porque, - e se atentarem irão facilmente confirmá-lo, - há sempre alguém a tentar dizer-nos alguma coisa.
Está nas paredes.
Está nas ruas.
Já entrou nos nossos ouvidos.
E eu sei, pobres escravos, que não têm forças para quebrar o deleite infinito da confortabilidade. E eu sei, é uma longa escada, com muitos degraus difíceis. E para subi-la, ninguém quer deixar nenhuma bagagem para trás.


Mas peço, poupem-me só a mim. Em nome da compaixão que as vozes dizem que todos merecemos:
Visto que na verdade não querem ouvir,
então não me façam perguntas.

30/05/10

A Glória

«Em menino, desejei a glória. Nessa idade, desejamos a glória como desejamos o amor: precisamos dos outros para nos revelarmos a nós próprios. Não digo que a ambição seja um vício inútil; pode servir para espicaçar a alma. Simplesmente, cansa-a.  Não sei de nenhum êxito que não se compre com meia mentira; não conheço ouvintes que não nos forcem a omitir ou a exagerar qualquer coisa. Muitas vezes pensei, com tristeza, que a alma realmente nobre não alcançaria a glória, porque não a desejaria. Esta ideia, que me desenganou da glória, desenganou-me do génio. Muitas vezes pensei que o génio não passa de uma eloquência particular, um dom barulhento de exprimir. Mesmo que eu fosse Chopin, Mozart ou Pergolese, diria apenas, talvez desajeitadamente, aquilo que um músico de aldeia sente todos os dias, quando tenta o melhor possível com toda a humildade.»

Em Alexis, por Marguerite Yourcenar

07/05/10

Hoje


Esqueci-me de mim a tentar esquecer-me de ti.
Milhões de anos entre nós, o meu cabelo cresceu.
Esqueci-me do sabor da chuva nas nossas blusas
e do som dela nos telheiros do caminho para casa.


Já não sei como é ser ouvida quando falo.
Os meus olhos aprenderam a calar, a ter vergonha.
Caminhei milhões de anos e não reencontrei a tua porta.


...
Hoje vi-te de novo pela primeira vez.


E és as milhares de histórias que tinha jurado esquecer.


Rostos reuniram-se à frente dos meus olhos
e fazem tanto barulho que só preciso
que me relembres do meu nome.

02/05/10

Existir

Não basta o facto de eu simplesmente existir; eu tenho que fazer alguma coisa.
Não basta ficar o dia todo a olhar pela janela, sentir no meu corpo o formigueiro das células que morrem a cada instante.
Não basta sugar a programação televisiva inteira, de trás para a frente, apesar de a terem criado de propósito para mim, e de generosamente ma darem à boca às colheradas.
Não basta rir quando numa festa alguém conta uma piada difícil de entender.
Não basta fazer as palavras cruzadas do jornal.
Não basta passar os dias a despedaçar-me no sofá, deixando que a realidade fuja de mim à velocidade da luz. A realidade... Onde raios anda essa puta? ...Onde é que ela está, afinal?


Porque já percebi...
Que não basta eu acordar todos os dias nesta dimensão absurda em que um planeta inteiro está colocado nas mãos de monstros.
Não basta eu defender o fim dos estereótipos, eu usar elixir bucal, eu não olhar directamente para as chagas dos mendigos.
Nada parece servir para alguma coisa. Eu aprendo, mas não aumento. Eu avanço, mas não progrido. Eu sofro, mas não consigo sangrar.





[caption id="" align="aligncenter" width="329" caption="Puberty - Munch"][/caption]

18/04/10

17/04/10

Meia História

 


- Merda.


Pensa ele, e murmura:

- Não está no casaco não está no casaco.
Não está nas calças não está nas calç... Não...
Não está... na mala...


Ele tinha perdido o relógio e não havia mais nada em casa para penhorar. Os pés estavam frios de gastar o linóleo da casa vazia a tentar encontrar uma solução.

- Não está na camisa.

É o final da história. E o início cavalga lá atrás para longe de nós, como é de costume. Passado. Presente. São forças que se opoem. São mentiras que se contradizem, por falhas de engenharia.
Não estava no passeio, não estava na estrada. Não estava mais atrás nem mais ao lado. Não estava preso às roupas.
Foi-se. Acabou. Adeusinho.


Ele salta de fúria pela rua abaixo.
Acabaram-se as pessoas para enganar.
Acabaram-se os esquemas para inventar.
Acabaram-se as mentiras para impingir.


Rasteja angustiado até à porta de casa. Passa o resto do dia frenético na cadeira de baloiço, a tentar entreter os pés. Ninguém lhe telefona. Ele pensa em como seria agradável acreditar em alguma coisa. O que é que lhe vai acontecer?

O que é que lhe vai acontecer, penso. Podia não lhe acontecer nada.
Se eu não terminar esta história.


Confesso que gostava de o fazer encontrar o relógio, estupidamente posto à volta do seu pulso há horas. Ele paralisaria de choque mas acabaria a rir. Tudo acabaria bem.
Ou então ele decidiria partir, mudar as coisas, lutar.
...Mas nunca se vai saber. Eu nunca hei-de escrever o final para isto. Apenas porque posso deixá-lo à espera naquela cadeira de baloiço para toda a eternidade. E ele nunca vai envelhecer. Sim, é isso.


É glorioso, na verdade.

Em troca de um relógio, ofereci imortalidade.
Hoje sinto-me bondosa.


13/04/10

Amigos

Quando vocês decidem chegar, todos os caminhos ofegam. O meu império curva-se numa vénia interminável à vossa passagem. O meu mundo é uma virgem de pernas escancaradas.

Abro-vos as minhas portas, a minha mente. Bate frenético por vós o meu coração, desde o primeiro instante. Ainda nem mexeram os lábios e são já profetas, ainda não me pegaram na mão e são já milagreiros.

Vivemos tempos de chuva, horas injustas.  Eu gritei por vós, defendi a candura, o amor que via nos vossos olhos.

Para quê?

Para me saber tão amada que me vejo sozinha. Para me saber tão boa que me vejo apodrecida. Para me saber tão protegida que rebolo aos trambolhões em direcção ao amanhã.

Obrigado, amigos.

12/04/10

É De Noite


As minhas noites costumavam ser segredos intransmissíveis. No meio das multidões, eu erguia-me mais solitária do que nunca. Sentia trazidas pelo ar umas badaladas atordoantes que faziam vibrar o mundo, levantando uma data de pó dentro da minha cabeça.


As minhas noites faziam-se de perfumes viciantes e holofotes apontados aos meus olhos. A música era quase intolerável por debaixo da cortina de desconcentração em que me movia de um lado para o outro.
Suores estranhos vinham ter com os meus lábios e excitavam-me as asas. Eu abria o meu peito e deixava a loucura sair, dando conta das marcas só na manhã seguinte.


A minha boca provou o sabor de todos aqueles cigarros. Por amor, por complacência, por submissão. Abri a minha boca para provar todos aqueles fumos, mesmo os de quem nunca conheci. Mesmo os de quem nunca vi.
Mesmo os de quem nunca olhou.
Podia rodopiar em torno de cada par de sapatos e mesmo assim a última música ainda não teria chegado. Porque a última música nunca chega no fim.


As minhas noites costumavam ser esconderijos de dor para fugir ao sofrimento. Quem me viu certamente me compreenderá. Quem lá estava buscava também fugir a este silêncio.
Em que me afogo agora.


Mas não queria sinos monumentais a berrar badaladas nos meus ouvidos. Nem rodopiar pela noite adentro até me desmoronar. Não quero beijos insinceros de uma sede já muito regada.
O que eu quero é conquistar sem medo os meus próprios corredores. Denunciar quem sou em cada rasto no chão. E ao fim da noite, puxar para o quarto aquele


alguém


que deseje beber o fumo das minhas asas acesas.

07/04/10

Entardecer da revolução

Parece haver um dispositivo qualquer em mim que dispara de vez em quando. Serve para impedir a minha vida de se tornar demasiado estável. De um estalo fico poderosa o suficiente para levar a cabo uma revolução. E chacino até o mundo não ser mais que um mar de corpos inertes aos pontapés no chão. Sujos, amorfos, mas nunca inocentes.


Vejo-me, portanto, sozinha. Eu contra todos. O meu pior pesadelo. O pesadelo que, aliás, faria qualquer sanguinário molhar os lençóis. A solidão pura e absoluta.


No fim do dia vagueio, cansada, alguém chama o meu nome mas não reconheço o som, e rumino as palavras enquanto caminho. Se começa a chover arrependo-me, choro, quero afecto, mas só tenho abutres resignados com o pôr-do-sol. E quanto mais eles te vêem, menos tu existes.

Estes Homens

Estes homens rastejam pela cidade o seu coração a mendigar.
Vivem lado a lado com os seus reflexos nos autocarros, nos comboios, nos metropolitanos. E miram-se, cansados, sem sorrir.
Estes homens têm casas atravancadas com mulheres rabugentas à espera. Mas elas esperam para sempre, porque eles nunca regressarão. Fazem rondas à volta e por dentro da cidade. De dia e de noite, eles estão por todo o lado, sentados nos banquinhos infestados dos transportes públicos, de mãos pousadas nos estofos berrantes.
São quase transparentes, meros trambolhos a congestionar as vias. São obstáculos à nossa pressa nas grandes escadas do metro. Os vultos passam junto deles à velocidade da luz, sem olhar.


Tudo o que eles precisam é de um sorriso. Um sorriso de um estranho. Com o olhar inequivocamente direccionado para eles, um momento antes de eles se desvanecerem no espaço. E apenas esse sorriso libertará estes homens da intemporal vagueação pela urbe.
Estes homens trazem nos olhos a carência renovada do Universo. E nos braços um tal vazio que se consegue alimentar de si mesmo, mastigando as vozes remotas que indicam a próxima paragem.

30/03/10

A Decisão



«O que se passa comigo hoje?»
Ela está sentada na cama. Os seus melhores anos viajam longe do olhar. Aprendeu cedo que as memórias conseguem quebrar os corações mais frígidos, mas que não é algo por que se deva choramingar. A mestria do silêncio encorpou-se nela com a voz da mãe, o chiar dos corredores, o eco dos cortinados. Ela coloca o dedo indicador sobre os lábios e diz shh, para não se atrever. Mas há um nó apertado que insiste em estrangular a sua garganta.


Ela não quer que ninguém lhe relembre da sorte que tem.
As mãos consolam-se mutuamente, esfregando-se numa trágica nostalgia. Lá fora, o vento não mostra piedade.


«Estou a perder a cabeça» sussurra, e lembra-se de há muito tempo numa tarde ter corrido atrás do seu chapéu pela rua fora. O vento despenteava as velhinhas na paragem do autocarro. E o sol brilhou descontrolado dentro dela como nunca, como nunca antes.

As mãos param e finalmente caem sobre o colo. Ela olha em volta para as paredes castanhas do quarto, e apercebe-se:
Está na altura de deixar o vento entrar.

28/02/10

Luzes da cidade

Se não dormisse já a criança no meu colo, hoje eu corria até chegar ao escuro. Como anseio... pela escuridão. Por essa cegueira divina que há tanto foi expulsa das ruas. Em todo o lado, a claridade poderosa persegue-me como um castigo. Esta noite, eu deixava a cidade e esta não-vida


tão desprovida de luz


tão carregada de luzes.

24/02/10

É mais que tempo de alguém ficar chateado II


Quando têm a oportunidade de falar para o grande público,uma das maiores preocupações dos activistas é a de não parecerem maluquinhos. Hoje, sei que se eles pareceram alguma vez maluquinhos, é porque as pessoas transformam em “maluquinhos” todos aqueles que dizem a verdade que elas não querem ouvir. Isto passou-se ao longo da História, vezes incontáveis. E por muito inacreditável que seja, continua a fazer-se! Sim, tal como o racismo e as calças de cintura subida, já passa muito da hora de ser ultrapassado.


Eu sei que há pessoas que me consideram ingénua por tentar convencer quem conheço a adequar os seus comportamentos aos seus ideais. A mudar a maneira como vivem conforme aquilo que realmente acreditam que é correcto. Há quem me diga que não faz realmente diferença como agimos, porque ninguém age correctamente em relação a tudo, e que por isso umas pessoas agem bem numas coisas, e outras noutras. E a isso eu respondo, que merda é essa? É compreensível que meia dúzia de gajos não saiba pensar por eles próprios e simplesmente se deixe levar na cantiga, mas não gente como nós. Pessoas boas, convictas, fortes. Então o plano é cada um fazer de forma correcta aquilo que lhe apetece? Um dá porrada ao cão mas faz reciclagem, outro paga os impostos mas abusa da filha? E de alguma maneira, convencem-se que feitas as contas, isto no fim vai dar tudo certo? Estão muitíssimo enganados.


E desde quando é que o facto de os outros agirem mal é desculpa para nós agirmos mal também? Afinal de contas, essa parece-me apenas MAIS UMA razão para procurarmos destacar-nos como exemplo.


Mais uma vez, chamem-me ingénua por sequer me dar ao trabalho de escrever isto. Toda-a-gente-está-farta-de-saber-que-está-tudo-muito-mal, não é? Como se a culpa não fosse de ninguém. Ou só pertencesse aos homens sentados nos lugares mais altos. A verdade é que as revoluções que usamos orgulhosamente ao peito foram feitas pelas pessoas como nós. Teremos esquecido?


E se temos esse poder, temos, queiram desculpar, essa inegável responsabilidade.


Hoje estou chateada.

Se aprendi alguma coisa com a filosofia

Se aprendi alguma coisa com a filosofia, 

é que se tu não sabes tudo, não sabes nada. 

E que ninguém sabe tudo.

Na Barriga da Baleia





23/02/10

Estou cansada de uma civilização da qual é suposto eu sentir-me parte. Até as gotas da chuva parecem patrocinadas por algum shampoo. E quantos mais cartazes eu vejo, com caras sorridentes ampliadas 50 vezes, a uma escala na qual naturalmente nunca veríamos a cara de ninguém, mais esta pele humana me perturba.

Às vezes no centro comercial sinto-me no meio de um formigueiro. Vejo toda a gente a andar, sentindo-se tão importante. Penso na quantidade de lixo que cada pessoa daquelas come e deita fora. Na quantidade de audiências que daquelas pessoas provêm para todos os canais de televisão. A quantidade de vidas desperdiçadas no centro comercial quando é necessária tanta ajuda em todo o lado. A minha vida incluída.

É mais que tempo de alguém ficar chateado

Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar. Toda a gente sofre de uma extrema necessidade e pressão para ter coisas para dizer, por isso creio que não é raro fabricarem significados por inércia. Inventarem razão.
E graças à embriaguez que a lógica proporciona, tudo pode fazer sentido.


Às vezes não consigo sair à rua, doente de fobia. As ruas pontapeiam-me por todas as frentes com mensagens iguais, mascaradas de diferentes. "Compre". Erguidas em cimento, plástico e palavras.
Sim, eles tomaram conta das palavras. Acreditam nisto? (Olhem para mim a fazer de conta que alguém se importa.) E aprenderam a foder-nos com elas.
Sabem todas as subtilezas, sugestões. Como nos fazer sentir fome, como nos dar tesão. Está tudo programado. E nós respondemos.






Hoje e para sempre, nós passamos impávidos por um cartaz publicitário gigantesco de uma mulher a segurar uma cerveja. E ela tem mamas grandes, e a cabeça foi cortada da fotografia.  E nós não nos levantamos, em raiva? Não dizemos "Mamas e cerveja?! Nada ainda mais óbvio para nos venderem essa porcaria?! Vão ter que tentar mais que isso! Mas quem é que pensam que anda aqui?!"


Ninguém se passa da cabeça e queima aquela merda? Ninguém é subitamente injectado por uma poderosa sensação que nos diz que estamos a ser constantemente e permanentemente diminuídos?


Não. Nós não fazemos um c*. Nós ainda compramos aquela cerveja e pagamos aos imbecis. Eles fazem de nós prostitutas. Crescem em cima de nós. Nós aceitamos ser os neandertais que respondem às palavras-chave dos poderosos. Mamas. Cerveja.
E com o passar da vida, pagamos isso com o couro, com o dinheiro, com a vida, com a integridade, com a consciência. Com a lucidez.


Tanto penso em tudo isto que me corrói. Sei que um dia esta semente vai romper dentro de mim, e eu não vou conseguir esconder mais que, como sempre soube, sou incapaz de pertencer aqui.


Mas não sei se algum dia vou saber o que é a vida sem estas poluições. Estou já tão infectada. Não sei o que me vai vencer primeiro. Espero que nunca o cansaço.


Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar.
Toda a gente tem alguma teoria. Mas ninguém quer assim tanto aprender. Toda a gente reage de forma inflexível ao que lhe é desconfortável. Pelo menos no início. Toda a gente tem complexos.






Leva muito tempo e muitas vidas para criar alguma mudança, se essa mudança for construída sem sangue e sem mentira. Leva muita tolerância e sofrimento. Muito peso, muita falta de sono.
É difícil porque toda a gente fala tão compulsivamente. É difícil porque toda a gente tem uma imagem do que devia ser. É difícil por causa dos cartazes publicitários. Difícil para quem não tem mamas grandes. Mas acima de tudo, difícil porque com tudo isto resta muito pouco tempo para ouvir. Resta muito pouco silêncio para pacificar. E demasiados vícios.


Era tão bom sair à rua e saber. Que em tudo o que faço sou eu. Que ninguém antes de mim escreveu os pensamentos na minha cabeça. Que ninguém me fará sentir mal por ser como sou, faltando ao respeito à própria Natureza que piedosamente criou até o timbre da sua voz.


É mais que tempo de alguém ficar chateado.




24-02-10

Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar. Toda a gente sofre de uma extrema necessidade e pressão para ter coisas para dizer, por isso creio que não é raro fabricarem significados por inércia. Inventarem razão.
E graças à embriaguez da lógica, fazem com que tudo possa ter sentido.

Às vezes não consigo sair à rua, doente de fobia. As ruas pontapeiam-me por todas as frentes com mensagens iguais. "Compre". Erguidas em cimento, plástico e palavras.

Sim, eles tomaram conta das palavras. E aprenderam a foder-nos com elas.
Sabem todas as subtilezas, sugestões. O que nos dá fome, o que nos dá tesão. Hoje e para sempre, nós passamos impávidos por um cartaz de 20 metros de uma mulher a segurar uma cerveja. E ela tem mamas grandes, e a cabeça foi cortada da fotografia. Mamas e cerveja, é o que se nos apresenta. E nós não nos levantamos, em raiva?! E nós não queimamos aquela merda?! Nós ainda compramos aquela cerveja! Nós aceitamos ser os neandertais que respondem a palavras chaves dos todos-poderosos. E pagamos isso com o couro, com o dinheiro, com a vida, com a integridade, com a consciência. Com a lucidez.
Até as gotas da chuva parecem patrocinadas por algum shampoo.
Estou cansada de uma civilização da qual é suposto eu sentir-me parte. Quantos mais cartazes eu vejo à beira da estrada, com corpos e rostos de largos metros de tamanho,

Acho que nunca vou saber o que é a vida sem estas poluições.

Toda a gente tem alguma teoria. Toda a gente se mostra inflexível em relação a alguma coisa. Toda a gente tem desconfortos e complexos. Nenhum de nós é tão aberto como pensa.
Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar. Toda a gente sofre de uma extrema necessidade e pressão para ter coisas para dizer, por isso creio que não é raro fabricarem significados por inércia. Inventarem razão.

Às vezes nem consigo sair à rua, doente de fobia a rostos. As ruas pontapeiam-me com mensagens e movimento. Até as gotas da chuva parecem patrocinadas por algum shampoo. Estou cansada de uma civilização da qual é suposto eu sentir-me parte. Quantos mais cartazes eu vejo à beira da estrada, com corpos e rostos de largos metros de tamanho,

Acho que nunca vou saber o que é a vida sem estas poluições.

Toda a gente tem alguma teoria. Toda a gente se mostra inflexível em relação a alguma coisa. Toda a gente tem desconfortos e complexos. Nenhum de nós é tão aberto como pensa.

22/02/10

Tu

És como sacudir a cabeça no meio do escuro, ver faíscas voarem do meu cabelo como insectos assustados.
És todos os sonhos inacabados para os quais inventamos finais depois do acordar.
És como a brisa que cai todas as manhãs. Sem pára-quedas.



Em ti, escrevem-se todos os segredos
as vidas que se levantam e as vozes que as chamaram.
As noites tricotadas pelas perguntas. O quanto amamos.



De ti, o murmúrio no vazio da noite. Sem rosto, sem cor, só a forma esbatida e a nudez da voz:


- Princesa.




E todos os meus silêncios se calam, finalmente.



23-02-10





«Nights when the heat had gone out
We danced together alone
Cold turned our breath into clouds
We never said what we were dreaming of
But you turned me into somebody loved.»

10/02/10

Gosto quando oiço algum senhor na televisão a dizer "nós, a humanidade". Faz-me sentir como se fosse parte da família dele. Como se, afinal, houvesse uma união qualquer. Uma igualdade. Estamos em qualquer coisa juntos - a nossa condição.

Para mim, alguém dizer que faz parte da humanidade

07/02/10

Aniversário


Hoje faço anos e pus-me a pensar.
Vinha no carro a olhar para as malditas gotas de chuva a dançar no vidro. Deixam-nos sempre nostálgicos, não é? Pensei, elas não têm mente. Atravessam a vida sem convicção, sem vontade. E são intemporais, porque não usam relógio.
Estas gotas deixam-se escorregar. Dividem-se, confundem-se, competem. Contribuem para o ciclo complexo que torna a minha vida possível. Que milagre. A porra do mundo. Ao rever estes pensamentos apetece-me disparar um agrafador contra a minha própria testa.

Estou tão, tão cansada. Ainda sou apenas uma criança, e em termos relativos, o próprio planeta Terra é uma criança, e isso inclui tudo o que nele se passa desde há milhões de anos. É como se tivéssemos todos acabado de nascer. No entanto estamos sempre cansados. E não gostamos assim tanto de viver. Nunca nos sentimos realmente puros. E não exercemos assim tanto o que pensamos que está correcto. Não ajudamos assim tanto os outros. E nada nos apaixona o suficiente para nos tirar a corda do pescoço.


No nosso dia de anos, ficamos à espera de nos sentirmos diferentes. Olhamos em volta para as paredes, os quadros, os candeeiros, as cortinas. Buscamos um sinal, um qualquer piscar de olho secreto que certifique este dia como diferente dos restantes milhares. Especial. Melhor. E se acordámos especialmente psicóticos, somos capazes de esburacar o quintal inteiro com uma pá à procura da porra do motivo de celebração.


No nosso dia de anos, toda a gente se lembra subitamente da nossa existência. E daqueles que se esquecem, esquecemo-nos nós. Porque, afinal de contas, muitas dessas pessoas são figurantes sem rosto na nossa vida. E dos baratos. Daqueles que olham para a câmara.


Só quero terminar esta página dizendo que a vida é uma maravilha. E que se eu dissesse que era uma merda, ia dar ao mesmo. Porque é o que é. E tudo o que temos não é a nossa alma, não é a nossa mente, não são os nossos segredos. É o que fazemos com as nossas mãos. O que realmente fazemos. Não o que dizemos que vamos fazer, ou o que apregoamos que devia ser feito. Não. É aquilo em que tocamos, mesmo que seja para dar cabo de algo em que nunca devíamos ter metido o nariz.


Olho para as minhas mãos e vejo a tinta esborratada de tudo o que já escrevi. Como isto, sempre foi tudo pobre, confuso, prematuro. Está tudo cá.
Penso, isso não me serve para nada.
Mas que se lixe. Resisti a mais este dia.

03/02/10

Borboletas


Devíamos abrir os olhos


com as pontas dos dedos, suaves como borboletas


sem o medo da memória,



a nudez do acordar.





Devíamos estender as mãos


sedentos de mudança, a escrever a História


com a luz


como tinta


que tanto sangue custou derramar.




03-02-10

23/01/10

Identidade

Cometi mais um erro hoje. A culpa é de não dormir. Espero que feches os olhos e ignores o bilhete que deixei por debaixo da porta.


No dia em que eu olhar para ti e não cair no abismo, eu vou saber que já não sou eu. Nesse dia, eu vou ver, impotente, afastada, a minha própria morte.

22/01/10

Retiro


Fizemos um retiro de quatro dias no sótão. Cheirava a ganzas e a incenso. Os dois fumos misturavam-se no ar como cavalos em corrida leve. Os cobertores misturavam-se com os pés como melaço, escorregando pelos dedos pacientes.


Deixámos as palavras subirem, descomprimidas no tecto inclinado. O baixo da música rugia contra as nossas nádegas sentadas.


A vida foi doce, nesses dias. Sem frio, sem fome, sem sono. Tudo parecia fumegar. Até os actores dos filmes antigos em que nos confundíamos com cada olhar.


Trincámos bolachas de canela e desistimos permanentemente do scrabble, em que ela fixava perdidamente as peças sem lhes encontrar sentido.


Debatemos o poder, a culinária, o sexo, os amendoins. Fiz massa em forma de lacinhos. Descansámos no telejornal e ouvimos a chuva dedilhar insistentemente as ondas do som.


As noites foram brandas de luzes, de velas meio acesas, de televisões meio apagadas. Os aquecedores seguiam-nos sozinhos para todo o lado como velhos rafeiros. A piscar de exaustão.


Como disse, foram lentos e doces esses dias, e vive-los-ei para sempre. Porque enquanto me lembro, vivo; enquanto recordo, aumento. E é nisto em que estou a pensar agora, enquanto escrevo o que estou ainda a viver.




21-01-10 (O 4º dia)

13/01/10

A Semelhança, a Representação e a Vertigem do Fim

Tive medo de encher a banheira, tenho sido vítima de desequilíbrios.
Às vezes penso que talvez não seja digna de purificação.
A mesa suga os líquidos de dentro de todos os meus copos,
todas as noites morro de sede caída no chão.
A única força em mim é a inércia dos baloiços abandonados,
embalando-se a si mesmos na escuridão do parque.
Mas quando expludo subindo pelas paredes acima,
sou o piano de Beethoven, sou a caneta de Rilke, o pincel de Munch.
Sou uma rapsódia, um templo, um passarinho.
Sou as veias da terra, as barbas do mar.
Ou um tsunami de proporções apenas megalómanas.
Sonho, canto e dispo. E quando amanhece, calo o olhar,
enrolada como um feto nos pântanos
à espera da noite seguinte.

13-01-10



Hoje a Lillie disse-me...

Vamos dando açúcar e recebendo coices.


11/01/10

Encontro

Estava um dia de frio insuportável. Encontrei-a à porta. Fumegava da boca, do pescoço e do café. Parecia entretida com um nó no estômago.

Olhei-a até me cansar. Depois olhei outra vez. Ela tinha as mãos vermelhas como se o sangue quisesse escapar pelas pontas dos dedos, talvez para compor um quadro impressionista. Debaixo dos olhos dela, pensei ver duas sereias, mas eram só olheiras normais. Senti pena. Pensei em meter conversa, por piedade. Sou sensível à solidão. Mas tive medo que me fumegasse para cima até eu embaciar.

Não há maneira engenhosa de dizer isto; foi constrangedor. Quando abandonei a triste criatura, ela partiu também, para o simétrico universo que existe para lá dos reflexos dos vidros. Ainda trocámos um último olhar, e verifiquei que o meu cabelo estava despenteado.

 

10-01-010


 


06/01/10

Deus, Pornografia e Fast-Food


Fará Deus ideia da quantidade de vezes que o seu nome é evocado em filmes pornográficos? Os momentos em que mais sou relembrada do nome do Senhor é enquanto assisto a pornografia. Não faço ideia do que isso possa significar. Mas não deixa de ser interessante. É como se a fé tivesse fugido das ruas, das igrejas, dos pelourinhos, e se tivesse escondido nos estúdios mal saneados onde oleadas vaginas saltam em cima de caralhos pulsantes. Tudo isto enquanto uma câmara filma, para que milhões e milhões possam desfrutar em privacidade de uma poderosa experiência religiosa.


Quando dou o primeiro gole, ela ainda costuma estar a fazer-se desentendida. Quando dou o último, já ela está a receber com um sorriso estupidamente infantil jactos de esperma por cima do seu peito.


A pornografia é uma coisa muito bonita. Faz-nos esquecer de toda a realidade, por ser tão completamente falsa. Nada daquilo satisfaz a nossa inteligência, mas também não chega a chatear, por estarmos tão tesos. No fundo, vendemos o nosso bom gosto por foda. Vendemos a nossa moral. O nosso sentido crítico. A nossa sensibilidade humana. ...E depois vimo-nos, mais cedo ou mais tarde. E depressa olhamos para o lado, enojados.


As raparigas da pornografia partem-me o coração. Quando mais inocentes parecem, mais porcas são, e não há nada que possamos fazer para nos esquecermos disso. Depois de termos visto uma pessoa de quatro a levar com tanta força que os olhos se lhe entortam, não conseguimos propriamente voltar a olhar para a pessoa sem essa imagem presente. Primeiro, porque não as conhecemos fora desse contexto, e segundo, porque mesmo quando elas parecem estar a demonstrar um pouco de quem são, esse momento dura dez segundos até à cambalhota seguinte. Por isso, no fundo, pensamos nelas como seres humanos de dignidade descartável. E esta dignidade pode durar apenas tanto tempo como um diálogo iletrado acerca de marotices.


Aparte a pornografia caseira, parece-me sempre idiotia pretender representar num filme porno um casal que busca reavivar a chama no seu longo casamento. Isto porque é uma máscara insustentável; quem está ou esteve casado sabe muito bem que não é assim. Para além de todo o acto se assemelhar a uma demonstração de ginástica acrobática, não há um único olhar, uma troca de palavras, nem uma pausa para respirar. Nada. Ou talvez estejam com demasiada pressa, por os miúdos estarem quase a voltar da natação.


Quando dou a primeira passa, ele ainda está só a olhar para ela com ar de imbecil ostentando a voluptuosa protuberância nas calças. Quando dou a última passa, já ele bufa de alívio por aquela merda ter chegado ao fim. Sacode o membro dorido com o resto do líquido sagrado que sela o fim da cerimónia.


Ao fim e ao cabo, não temos desculpa para ver aquela porcaria. Nem as gajas são assim tão boas, nem as imagens as que queremos ver. Vemo-lo porque a solidão é rasca, e nos leva a vasculhar no lixo. Vemo-lo porque a pornografia é a fast-food do sexo; mata a fome momentaneamente, é rapidamente engolida e só pensamos no quão repugante é depois.


Há quem se sinta mal. Há quem se sinta culpado. Eu encho outro copo e abraço a natureza humana.



06-01-10

Receita (25 de Dezembro)

Raiva sendo o néctar das lentas mortes.
Raiva sendo a chuva ofegante contra o peito.
Raiva em todas as preces por finais inesperados.

E nunca,
nunca
nunca
esconder.

Love O'Love

Tenho o punhal na mão, a sangrar silêncio na página que diz

O Amor Não Nos Falhará.
Fecho os olhos e sei, não posso ser sempre eu a rasgar os cenários. Quero ser o grande vazio às vezes, e planar.
 
Quero que percebas com os teus próprios olhos.
 
Ao teu peito pertence o meu punhal.

 

 

26-12-09

O Feitiço

Cada luz da manhã nos nossos olhos, uma ferida. Cada anoitecer ensalivado, mais um mergulho num furacão.
Não vamos desperdiçar o tempo. Vamos levando a boca à garrafa, os olhos ao fumo. Vamos levando as mãos ao peito, esmagado de introversão. É uma terceira puberdade. Uma segunda infância. Uma primeira velhice. Em que todas as luzes se apagam.
Dançamos s e m e s c r ú p u l o s em todas as espeluncas, saltamos com tanta força que voamos, ou ficamos flutuando em cambalhotas no ar. A música penetra-nos até à virgindade. Não há roupa sem suor. A gravidade arranha-nos os tendões, vagarosa.
Corremos à chuva pelo autocarro, damos a mão e o nosso cachecol é subitamente a p r ó p r i a g a l á x i a ; depressa nos vemos perdidas.
Tudo é mágico nesta história. As facas da cozinha. O açúcar amarelo. Os lençóis. Os cereais de pequeno almoço. Os metros infindáveis. Chegamos a casa já fazendo amor.
As minhas roupas correm a tapar todas as janelas, o escuro agarra-nos os corpos. E somos apenas notas de uma melodia maior.
Tudo é trágico nesta história. O medo. As plantas da sala de estar. As lágrimas. As promessas.
...Mas as roupas caem e mesmo junto da luz, o feitiço não se quebra.

08-12-09

The Private Teacher (28 de Novembro)

I m a y c h a s e y o u b u t I w o n ' t e a t y o u .



Tu e Eu

Neste momento, eu faria amor contigo como se fosse a primeira vez.
Não me lembro, aliás, de ter feito amor contigo de alguma outra maneira.Cairiam pétalas do tecto enquanto os meus lábios te viajavam, e talvez escutássemos chuva lá fora, como que tombando nas teclas de um grande piano, largando uma melodia só nossa e movendo a passagem do tempo.
O ar tornar-se-ia denso, perfumado de desejos, espantado consigo mesmo. Revolvendo-se em fluxos de luz, cor, som e aroma - todas as matérias-primas do Criador.


Escreveríamos um romance de mil páginas apenas com as palavras que suspiramos nessas noites. Nada nem ninguém nos vigia e é toda nossa a liberdade dos amantes voadores.



Tu e Eu, sem escrúpulos, prisioneiras da nossa pele, e em expansão infinita através da trama do Universo. 

26-11-09

 

Newsflash! (23 de Agosto)

Não há antídoto.

Pensamentos Profundos (9 de Agosto)

Ri-se de mim: Tu consegues lá pensamentos profundos sem estares completamente charrada.

Mando-a ir-se foder. Consigo sim. Sou a porra de uma metralhadora de pensamentos profundos. Vê-me só.

Não encontro uma caneta. Desisto. Ela ri-se outra vez, disfarçadamente. Vou até à cozinha, enfio um chupa na boca e dispo os calções e as cuecas. Sento-me na bancada com ar de puta e assobio. Ela vem. Quando me vê de pernas abertas, começa a andar devagarinho como um gato matreiro, e como um gato baixa ligeiramente a cabeça para não dar nas vistas. Quando está muito perto de mim, cheira-me o pescoço como se eu lhe fosse estranha. Depois arranca-me o chupa da boca e passa-o entre as minhas pernas. Eu sustenho a respiração, chocada, punida. Ela enfia o chupa na boca e roda-o lá dentro, esfregando-o na língua, com a boca aberta. Depois diz: Não prestas para nada.

Depois repete: Não prestas.

Agarro-a pelo pescoço com tanta força que os olhos quase lhe saltam. Num impulso atiro-a ao chão, não bate com a cabeça porque se apoia nos cotovelos, mas os longos cabelos castanhos agitam-se ondulantes em câmara lenta.

Depois sento-me na cara dela e faço-a pedir-me desculpa. Ela resiste. Eu agarro-lhe os cabelos e monto-a, vingativa. Ela cede e agarra-me as coxas enquanto se alimenta de mim.

A TV ficou ligada, oiço o noticiário da sala, começou a época de incêndios. Ardem colheitas, casas, animais. Árvores centenárias. Olho para baixo e ela continua a lamber, não se podia estar mais nas tintas. Há pequenas gotas de suor a escorregar em volta do pescoço moreno. Penso em levá-las para apagar os fogos. Mas em vez disso deixo-me estar.

O repórter da televisão fala em mortos, fala em lares destruídos, em famílias desesperadas. Sentada na cara dela, eu fecho os olhos e tento ter pensamentos profundos.

(7 de Agosto)

Black bears wrestle to bond.


Ela - Premonição (2 de Agosto)


Vou imaginá-la com os olhos abertos, para que a realidade me socorra. Tem de ser denso mas quente. Transcendente mas carnal. Já sei.


O coração dela bate ao ritmo de Portishead.


Quero continuar. As minhas mãos levantam-se no ar como se me preparasse para tocar num enorme piano. Os dedos esticam-se e contorcem-se, buscando tocar a poesia líquida do ar. Os meus ombros arrepiam-se, num vazio ansioso. Vou imaginá-la com as mãos abertas, para que o mundo me possa agarrar. Ela está à minha espera no topo de uma montanha que escalou durante dias, sozinha e descalça. No entanto os pés dela permanecem intactos, como que por magia.


Pouso a caneta observando a minha sombra. Se eu imaginasse nestas paredes um enorme oceano, a minha sombra é tudo o que eu seria. E fecho as mãos cega de poder, de poder escolher ser apenas isso. Poder ser qualquer coisa.


Ela tem o cabelo caído sobre o rosto, e nada conhece acerca da Beleza que esperam que ela simbolize. Quero tocar mas tudo o que sinto aqui é a minha própria textura. Quero provar mas tudo o que tenho aqui é a minha própria saliva. Fecho os olhos para que a realidade não possa salvar-me nunca mais. Ela dançará comigo flutuando, para que nunca nos pisemos acidentalmente. A luz da manhã vai soltar fiapos brilhantes à nossa volta, e ela vai chorar comigo apenas de felicidade. Vamos passar as noites acordadas em demandas imaginárias. Como crianças perdidas. Nos olhos dela vou encontrar a selva e o lar.


Vou resgatá-la agora, deixando o escuro para trás. Charcos de poesia líquida para ela beber das minhas mãos. E hei-de encontrá-la, e vou amá-la, de olhos fechados e de mãos abertas.


... (29 de Julho)


Sobre quem brotarão as palavras




quando falecerem todas as amantes?






Divagações em Dueto (12 de Julho)

(...) A única parte divina acerca dos acontecimentos é, justamente, a Escolha. E a única parte misteriosa somos, surpreendentemente, nós mesmos, arquitectos e construtores distraídos das obras de arte com que nos deparamos, desconhecendo que é nosso o mérito, e não da Coincidência.

Poderás responder, - e o fluxo que corre dentro de nós, não será ele divino? – e eu responderei, sim, absolutamente. Mas será ele sempre a comandar os nossos pés, as nossas mãos? Será ele quem traz os momentos-chave até nós? Ou será ele apenas o processador? – E tu, cheia da sabedoria da tua paixão, responderás, mas não estará o fluxo divino em tudo? Nas mãos, nos pés, nos acontecimentos, na brisa, nas sensações, nas aparentes coincidências? E eu render-me-ei – sim, tens razão. Tudo é divino, tal como nós. Somos criação, depois criadores. – E no fim faremos amor até anoitecer, porque nada mais nos resta.


Até ao pôr-do-sol (24 de Junho)




Era manhãzinha. Abri a janela à amante e mostrei-lhe o quão fresco é o cheiro do Mundo. Os pássaros tagarelavam e o ar revolvia-se a emoldurar o quotidiano. Ela não queria sentir, por isso insisti um pouco. Então as suas asas abriram-se, frágeis e renitentes, e voando timidamente lá foi ela em direcção ao fim desta história.

Fico na cama, despida. Oiço os gatos vadios delirando na rua, a procurar esfomeados onde depositar a sua fúria sexual. Murmuro-lhes que às vezes mais vale esperar pela chuva gelada. Não vai chegar o nosso casulo. Não surgirão os olhos perfeitos que nos farão florescer. Não podemos continuar à espera.
 
Tapo-me com os lençóis até não ver um ponto de luz.
Até ao pôr-do-sol gememos, eternamente vadios, eu e todos os gatos.

Canção de Amor (21 Junho)

Oiço as canções de amor dos outros e sorrio, feliz por haver quem ame. Estou de sol no rosto e bainha na mão. Não há canção para mim. Não faz mal. Eu sorrio ouvindo as dos outros, sozinha, triunfante de escuridão e desejo. A poesia diz-me para esperar. Que ficarei forte e maior. Que alguém vai querer segurar-me. Mas eu só quero que me larguem, que me soprem.
Porque o meu amor está no vento.
Está no brilho de todos os olhos.
E nas minhas asas ardendo na luz.
Está nos livros empoeirados.
No silêncio do beijo.
Nos pianos irrequietos.


O meu amor está vibrando em todo o lado a toda a hora.

E foge, para eu nao parar de o encontrar.

Beatas (9 de Maio)

(Chovem beatas no meu telhado e há musgo a crescer em mim.                                                                                                                      As horas passam e fogem depois de me montarem como prostitutas  bem ensinadas. Pequenas florzinhas brotam da humidade do meu corpo.)


Tenho a certeza de que não te lembras de quando adormecias ao meu lado e eu ficava a noite inteira a contar os teus cabelos, fios brilhantes de certeza. Brilhantes de promessas.
Às vezes gritavas comigo e eu apaixonava-me ainda com mais força pelos teus olhos. Doente.


Agora as noites são límpidas de sonhos e ninguém chora. Sinto falta das tuas lágrimas na minha cara, porque estavas perto. Tão perto.


(Queria alguém a chorar contra mim.
Alguém que arrancasse este musgo.)

Quase (8 de Maio)

Tenho algumas cicatrizes a confessar. Atravessam-me a alma até à epiderme. Exibem-se desavergonhadas a quem me despe.

Estou quase preparada, mas não realmente.
Sou sempre acompanhada, mas não realmente.
Estou quase equilibrada, mas não realmente.
Sou quase amada, mas não.


Tenho um pássaro sonolento na janela e uma amante voadora na cama. A tarde cose juntos os nossos corpos, flutuantes entre fiapos de luz. Vejo-nos no espelho,
eu e ela
no ar.


Não temos peso nem densidade, somos só cor e afecto, fome e reflexo.

Sou quase amada, mas não.


Amor Nocturno Subaquático (29 Abril)

Vieste de madrugada quando eu já estava sóbria. 
As veias quase saltavam do teu braço, quase
rompiam a pele, tão inchadas e azuis. Eu acendi um
cigarro de mentol e apercebi-me de que o meu romance
não tinha futuro.
Pensei em Greene, pensei em Cunningham,
em Palahniuk, pensei no teu sexo vertendo os meus
sonhos. Mas nada.

As palavras junto de ti esvaíam-se em desejo.
Os teus lábios cheiravam a baunilha dentro
da minha cama e sorrimos até o sol raiar.
Os meus pés contra os teus pés. A pedalar o sono.
 


 Amor          Nocturno          Subaquático