They say F R E E D O M
is the answer to a question you don't have to ask...
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Duas crianças dormiam. Sonhavam que estava a chover.
As gotas de água caíam e mordiam-nas, como dezenas de piranhas. Mas a carne não sangrava. Em vez disso, a pele caía em véus, transparente, até pousar em alguma poça de água no chão.
As crianças sacudiam-se de susto e confusão, vendo o seu corpo despedaçar-se em camadas. A dor era quente e lasciva. As crianças trocavam olhares de intimidade febril.
Por debaixo da pele caída, um novo corpo emergia - dourado e desnorteante, como os olhos de um tigre.
As crianças notaram que as gotas que caíam no chão faziam nascer ervas daninhas. Daquelas que sugam o solo com uma fome de mendigo, e nunca se esgotam de querer.
Passados momentos, as crianças viram-se nuas. Toda a sua pele anterior tinha caído e servia de alimento a outras pequenas histórias. Então, entreolharam-se pela última vez essa noite, e deitaram-se para se amarem até de madrugada. Sobre o verde reluziam os corpos unidos, dilatando-se no silêncio como dois raios de sol.
A chuva tornou-se branda e em breve as ervas daninhas se tornaram lençóis. As crianças acordaram embaladas pelo ar morno da manhã. Abriram os olhos sem se lembrarem do que tinham juntas sonhado. Acotovelaram-se espreguiçando-se longamente. Esfregaram os olhos e observaram-se - este olhar levantou silêncio.
Havia algo escrito por debaixo dos lábios mas as crianças não sabiam ler. Havia algo a romper de dentro dos olhos mas as crianças não conseguiam ver. Restava um sabor de certeza e sangue, que elas conheciam sem terem ainda provado.
Então, como sábios decidiram esperar, sabendo que haviam de cumprir todas as profecias que ainda desconheciam.
É o fim de mais uma tarde. Pelos passeios gelados levito de volta para casa. Sobre mim, as árvores cospem folhas secas à vez, como uma fonte programada de centro comercial. O solene assobio dos subúrbios inunda a minha cabeça, não preciso de fazer nada senão respirar.
As casinhas são todas iguais e estão alinhadas de forma perfeita mas todos sabemos qual é a nossa. Magia.
Passo pela família indiana que mora ao meu lado, eles nunca olham para mim. Uma criança de colo vira a cabeça e engole a infinitude desta rua com os grandes olhos escuros. Nos olhos da criança vejo - a fila de casas alinhadas prolonga-se, regular, até ao fundo, até ao céu. Magia.
Chego à entrada. Tenho uma chave que abre esta porta.
É dourada e suja, como um tesouro desenterrado.
Sinto-me obrigada a dizer que encontrei o meu lugar para existir. E para ele parto veloz, sem bagagens e sem paragens. Apenas no peito o quente das mãos do meu amor.
Aprendi.
Quando abro os olhos, fecho os olhos.
Quando fecho os olhos, abro os olhos.
Não sentirei a falta de ninguém. Ninguém sentirá a minha falta.
Porque nunca se calaram para me ouvir.
Porque nunca fecharam os olhos para me ver.
Apenas um último som;
Adeus.
Com a determinação de alcançar
O bem supremo de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los com a maior estima.
Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em mim como a mais insignificante de entre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.
Em todos os meus actos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo-me em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles que são oprimidos por fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de encontrar.
Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a tomar como minha a derrota,
E a eles oferecer a vitória.
Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.
Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem excepção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios directos e indirectos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.
Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenómenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.
Talvez eu possa escrever alguma coisa.
Sim, já estou acordada há cerca de vinte horas, talvez eu consiga escrever.
Já sorvi fumo suficiente, já empatei o suficiente, talvez seja esta a hora.
Não há a porra de um único dia sem estes fantasmas à minha volta. Flutuando gloriosos ao som de coros demoníacos. Esta merda é o Mal. Está aqui mesmo, na minha casa. Na minha cama. Na minha mente. E é traiçoeiro.
Tentei entender porque me faço isto, mas chego sempre ao evidente, sou só humana. E todos amamos sofrer. De uma maneira ou de outra, encontramos maneira de concretizar isso. Invejamos meras “imagens”, sabotamos as coisas que precisamos de obter, procuramos vinganças para acalmar a dor. Sem vermos que nada compensa ou vinga nada, e que tudo, por fim, se complementa.
Devíamos ter mais calma. Na verdade é um bocado só isso. Devíamos parar antes de nos tornarmos numas esponjas andantes que absorvem tudo o que recebem. Devíamos perguntar mais vezes. Devíamos manter-nos mais inocentes. Para não ficarmos a pensar que temos as regras do jogo e nada nos pode surpreender. Estou a ser extremamente abstracta. Foda-se detesto isso acerca de mim. Parto do princípio que anda toda a gente anda a fritar com esta merda como eu. Mas engano-me. Já está tudo tão ambientado. Chega a ser bonito., como uma exposição de cozinhas. Limpeza. Ordem.
Bem, já escrevi qualquer coisa. Não serve para nada a não ser para eu me rir mais tarde. Como toda a gente ri.
E estou aqui a pensar, detesto a merda dos gajos engravatados. O que raio é uma gravata, de qualquer forma? Para que serve? Alguém tem vergonha de mostrar os botões? Que me poupem. Há limites para a futilidade. É um mero acessório. A futilidade, digo, não as gravatas. Isto não é acerca de gravatas. Estou farta da estabilidade embaraçosa da minha vida caótica. Isto tem tudo que ir.
A sólida melodia de um piano ocupava o espaço da sala inteira enquanto as minhas pernas se abriam, conduzidas pelas mãos nos meus joelhos. Lembro-me de assistir a esse momento de fora, vibrando de depravação como um daqueles homens tristes que se escondem atrás de moitas.
Conseguia visualizar tudo, como se visto através de uma cortina rendada ao fundo da sala. Fazia tudo parecer ainda mais vulgar, ainda mais rasca, e isso deixava-me molhada.
Eu estava sentada a abrir as minhas pernas, e estava também escondida, atrás da cortina, a ver. Éramos duas de mim. Mas apenas uma sentia o calor a derreter a pele, a fome insuportável do corpo; a que estava a observar.
O piano roubava o oxigénio todo, enquanto me via soltar os braços e levantar-me, agarrada pelas coxas por umas mãos. Eu ficava suspensa. As mãos puxavam-me consecutivamente contra o outro corpo para me devorar. Por detrás da cortina rendada eu via a carne das minhas coxas por entre os dedos da outra pessoa, como que inchada, cheia de sumo. O meu corpo flutuava sem peso, apenas ligado pela púbis ao corpo desconhecido.
Não havia nada que eu precisasse de fazer, ou dizer, ou pensar. Eu estava lá, atrás da cortina, a sentir tudo, intocada. Sabendo-me demasiado pesada para algum dia levantar os pés do chão.
Estou farta dessas malditas perguntas. Não saberão eles que todas as palavras caem no chão? Não perceberam ainda que quando eles falam, tudo o que chega ao destino são meros ecos de voz?, meros fiapos de energia instável?, uma coisa que não toca ninguém, que não belisca ninguém, que não atira ninguém ao chão?
Não terão ainda percebido que todo o som está morto a partir do instante em que nasce? Tal como nós.
Por isso devemos calar, devemos aquietar-nos num acordo não pronunciado. E talvez, eu acredito, se calarmos toda essa morte tirana que nos rasga pela boca fora, se engolirmos todas essas palavras que expelimos como cadáveres a cair de um lugar muito muito alto, nós acabaremos por ouvir. Algo tão poderoso que essas palavras que vomitamos extinguir-se-ão para sempre como mais uma peste histórica.
Mas a parte difícil é esta, só vamos ouvir quando todos estivermos calados. E nem todos concordam, somos um bando conflituoso, fritamos a carne em medo. Precisamos do veneno das palavras tanto quanto tememos ficar a sós com o silêncio.
Essa parte é, alerto, mesmo muito difícil. Porque, - e se atentarem irão facilmente confirmá-lo, - há sempre alguém a tentar dizer-nos alguma coisa.
Está nas paredes.
Está nas ruas.
Já entrou nos nossos ouvidos.
E eu sei, pobres escravos, que não têm forças para quebrar o deleite infinito da confortabilidade. E eu sei, é uma longa escada, com muitos degraus difíceis. E para subi-la, ninguém quer deixar nenhuma bagagem para trás.
Mas peço, poupem-me só a mim. Em nome da compaixão que as vozes dizem que todos merecemos:
Visto que na verdade não querem ouvir,
então não me façam perguntas.
Esqueci-me de mim a tentar esquecer-me de ti.
Milhões de anos entre nós, o meu cabelo cresceu.
Esqueci-me do sabor da chuva nas nossas blusas
e do som dela nos telheiros do caminho para casa.
Já não sei como é ser ouvida quando falo.
Os meus olhos aprenderam a calar, a ter vergonha.
Caminhei milhões de anos e não reencontrei a tua porta.
...
Hoje vi-te de novo pela primeira vez.
E és as milhares de histórias que tinha jurado esquecer.
Rostos reuniram-se à frente dos meus olhos
e fazem tanto barulho que só preciso
que me relembres do meu nome.
- Merda.
As minhas noites costumavam ser segredos intransmissíveis. No meio das multidões, eu erguia-me mais solitária do que nunca. Sentia trazidas pelo ar umas badaladas atordoantes que faziam vibrar o mundo, levantando uma data de pó dentro da minha cabeça.
As minhas noites faziam-se de perfumes viciantes e holofotes apontados aos meus olhos. A música era quase intolerável por debaixo da cortina de desconcentração em que me movia de um lado para o outro.
Suores estranhos vinham ter com os meus lábios e excitavam-me as asas. Eu abria o meu peito e deixava a loucura sair, dando conta das marcas só na manhã seguinte.
A minha boca provou o sabor de todos aqueles cigarros. Por amor, por complacência, por submissão. Abri a minha boca para provar todos aqueles fumos, mesmo os de quem nunca conheci. Mesmo os de quem nunca vi.
Mesmo os de quem nunca olhou.
Podia rodopiar em torno de cada par de sapatos e mesmo assim a última música ainda não teria chegado. Porque a última música nunca chega no fim.
As minhas noites costumavam ser esconderijos de dor para fugir ao sofrimento. Quem me viu certamente me compreenderá. Quem lá estava buscava também fugir a este silêncio.
Em que me afogo agora.
Mas não queria sinos monumentais a berrar badaladas nos meus ouvidos. Nem rodopiar pela noite adentro até me desmoronar. Não quero beijos insinceros de uma sede já muito regada.
O que eu quero é conquistar sem medo os meus próprios corredores. Denunciar quem sou em cada rasto no chão. E ao fim da noite, puxar para o quarto aquele
alguém
que deseje beber o fumo das minhas asas acesas.
Se aprendi alguma coisa com a filosofia, é que se tu não sabes tudo, não sabes nada. E que ninguém sabe tudo.
Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar. Toda a gente sofre de uma extrema necessidade e pressão para ter coisas para dizer, por isso creio que não é raro fabricarem significados por inércia. Inventarem razão.
E graças à embriaguez que a lógica proporciona, tudo pode fazer sentido.
Às vezes não consigo sair à rua, doente de fobia. As ruas pontapeiam-me por todas as frentes com mensagens iguais, mascaradas de diferentes. "Compre". Erguidas em cimento, plástico e palavras.
Sim, eles tomaram conta das palavras. Acreditam nisto? (Olhem para mim a fazer de conta que alguém se importa.) E aprenderam a foder-nos com elas.
Sabem todas as subtilezas, sugestões. Como nos fazer sentir fome, como nos dar tesão. Está tudo programado. E nós respondemos.
Hoje e para sempre, nós passamos impávidos por um cartaz publicitário gigantesco de uma mulher a segurar uma cerveja. E ela tem mamas grandes, e a cabeça foi cortada da fotografia. E nós não nos levantamos, em raiva? Não dizemos "Mamas e cerveja?! Nada ainda mais óbvio para nos venderem essa porcaria?! Vão ter que tentar mais que isso! Mas quem é que pensam que anda aqui?!"
Ninguém se passa da cabeça e queima aquela merda? Ninguém é subitamente injectado por uma poderosa sensação que nos diz que estamos a ser constantemente e permanentemente diminuídos?
Não. Nós não fazemos um c*. Nós ainda compramos aquela cerveja e pagamos aos imbecis. Eles fazem de nós prostitutas. Crescem em cima de nós. Nós aceitamos ser os neandertais que respondem às palavras-chave dos poderosos. Mamas. Cerveja.
E com o passar da vida, pagamos isso com o couro, com o dinheiro, com a vida, com a integridade, com a consciência. Com a lucidez.
Tanto penso em tudo isto que me corrói. Sei que um dia esta semente vai romper dentro de mim, e eu não vou conseguir esconder mais que, como sempre soube, sou incapaz de pertencer aqui.
Mas não sei se algum dia vou saber o que é a vida sem estas poluições. Estou já tão infectada. Não sei o que me vai vencer primeiro. Espero que nunca o cansaço.
Desde há algum tempo, eu não sei em que acreditar.
Toda a gente tem alguma teoria. Mas ninguém quer assim tanto aprender. Toda a gente reage de forma inflexível ao que lhe é desconfortável. Pelo menos no início. Toda a gente tem complexos.
Leva muito tempo e muitas vidas para criar alguma mudança, se essa mudança for construída sem sangue e sem mentira. Leva muita tolerância e sofrimento. Muito peso, muita falta de sono.
É difícil porque toda a gente fala tão compulsivamente. É difícil porque toda a gente tem uma imagem do que devia ser. É difícil por causa dos cartazes publicitários. Difícil para quem não tem mamas grandes. Mas acima de tudo, difícil porque com tudo isto resta muito pouco tempo para ouvir. Resta muito pouco silêncio para pacificar. E demasiados vícios.
Era tão bom sair à rua e saber. Que em tudo o que faço sou eu. Que ninguém antes de mim escreveu os pensamentos na minha cabeça. Que ninguém me fará sentir mal por ser como sou, faltando ao respeito à própria Natureza que piedosamente criou até o timbre da sua voz.
É mais que tempo de alguém ficar chateado.
24-02-10
23-02-10
«Nights when the heat had gone out
We danced together alone
Cold turned our breath into clouds
We never said what we were dreaming of
But you turned me into somebody loved.»
Estou tão, tão cansada. Ainda sou apenas uma criança, e em termos relativos, o próprio planeta Terra é uma criança, e isso inclui tudo o que nele se passa desde há milhões de anos. É como se tivéssemos todos acabado de nascer. No entanto estamos sempre cansados. E não gostamos assim tanto de viver. Nunca nos sentimos realmente puros. E não exercemos assim tanto o que pensamos que está correcto. Não ajudamos assim tanto os outros. E nada nos apaixona o suficiente para nos tirar a corda do pescoço.
No nosso dia de anos, ficamos à espera de nos sentirmos diferentes. Olhamos em volta para as paredes, os quadros, os candeeiros, as cortinas. Buscamos um sinal, um qualquer piscar de olho secreto que certifique este dia como diferente dos restantes milhares. Especial. Melhor. E se acordámos especialmente psicóticos, somos capazes de esburacar o quintal inteiro com uma pá à procura da porra do motivo de celebração.
No nosso dia de anos, toda a gente se lembra subitamente da nossa existência. E daqueles que se esquecem, esquecemo-nos nós. Porque, afinal de contas, muitas dessas pessoas são figurantes sem rosto na nossa vida. E dos baratos. Daqueles que olham para a câmara.
Só quero terminar esta página dizendo que a vida é uma maravilha. E que se eu dissesse que era uma merda, ia dar ao mesmo. Porque é o que é. E tudo o que temos não é a nossa alma, não é a nossa mente, não são os nossos segredos. É o que fazemos com as nossas mãos. O que realmente fazemos. Não o que dizemos que vamos fazer, ou o que apregoamos que devia ser feito. Não. É aquilo em que tocamos, mesmo que seja para dar cabo de algo em que nunca devíamos ter metido o nariz.
Olho para as minhas mãos e vejo a tinta esborratada de tudo o que já escrevi. Como isto, sempre foi tudo pobre, confuso, prematuro. Está tudo cá.
Penso, isso não me serve para nada.
Mas que se lixe. Resisti a mais este dia.
Devíamos abrir os olhos
com as pontas dos dedos, suaves como borboletas
sem o medo da memória,
só
a nudez do acordar.
Devíamos estender as mãos
sedentos de mudança, a escrever a História
com a luz
como tinta
que tanto sangue custou derramar.
03-02-10
13-01-10

10-01-010


Fará Deus ideia da quantidade de vezes que o seu nome é evocado em filmes pornográficos? Os momentos em que mais sou relembrada do nome do Senhor é enquanto assisto a pornografia. Não faço ideia do que isso possa significar. Mas não deixa de ser interessante. É como se a fé tivesse fugido das ruas, das igrejas, dos pelourinhos, e se tivesse escondido nos estúdios mal saneados onde oleadas vaginas saltam em cima de caralhos pulsantes. Tudo isto enquanto uma câmara filma, para que milhões e milhões possam desfrutar em privacidade de uma poderosa experiência religiosa.
Quando dou o primeiro gole, ela ainda costuma estar a fazer-se desentendida. Quando dou o último, já ela está a receber com um sorriso estupidamente infantil jactos de esperma por cima do seu peito.
A pornografia é uma coisa muito bonita. Faz-nos esquecer de toda a realidade, por ser tão completamente falsa. Nada daquilo satisfaz a nossa inteligência, mas também não chega a chatear, por estarmos tão tesos. No fundo, vendemos o nosso bom gosto por foda. Vendemos a nossa moral. O nosso sentido crítico. A nossa sensibilidade humana. ...E depois vimo-nos, mais cedo ou mais tarde. E depressa olhamos para o lado, enojados.
As raparigas da pornografia partem-me o coração. Quando mais inocentes parecem, mais porcas são, e não há nada que possamos fazer para nos esquecermos disso. Depois de termos visto uma pessoa de quatro a levar com tanta força que os olhos se lhe entortam, não conseguimos propriamente voltar a olhar para a pessoa sem essa imagem presente. Primeiro, porque não as conhecemos fora desse contexto, e segundo, porque mesmo quando elas parecem estar a demonstrar um pouco de quem são, esse momento dura dez segundos até à cambalhota seguinte. Por isso, no fundo, pensamos nelas como seres humanos de dignidade descartável. E esta dignidade pode durar apenas tanto tempo como um diálogo iletrado acerca de marotices.
Aparte a pornografia caseira, parece-me sempre idiotia pretender representar num filme porno um casal que busca reavivar a chama no seu longo casamento. Isto porque é uma máscara insustentável; quem está ou esteve casado sabe muito bem que não é assim. Para além de todo o acto se assemelhar a uma demonstração de ginástica acrobática, não há um único olhar, uma troca de palavras, nem uma pausa para respirar. Nada. Ou talvez estejam com demasiada pressa, por os miúdos estarem quase a voltar da natação.
Quando dou a primeira passa, ele ainda está só a olhar para ela com ar de imbecil ostentando a voluptuosa protuberância nas calças. Quando dou a última passa, já ele bufa de alívio por aquela merda ter chegado ao fim. Sacode o membro dorido com o resto do líquido sagrado que sela o fim da cerimónia.
Ao fim e ao cabo, não temos desculpa para ver aquela porcaria. Nem as gajas são assim tão boas, nem as imagens as que queremos ver. Vemo-lo porque a solidão é rasca, e nos leva a vasculhar no lixo. Vemo-lo porque a pornografia é a fast-food do sexo; mata a fome momentaneamente, é rapidamente engolida e só pensamos no quão repugante é depois.
Há quem se sinta mal. Há quem se sinta culpado. Eu encho outro copo e abraço a natureza humana.
06-01-10
Neste momento, eu faria amor contigo como se fosse a primeira vez.
Não me lembro, aliás, de ter feito amor contigo de alguma outra maneira.Cairiam pétalas do tecto enquanto os meus lábios te viajavam, e talvez escutássemos chuva lá fora, como que tombando nas teclas de um grande piano, largando uma melodia só nossa e movendo a passagem do tempo.
O ar tornar-se-ia denso, perfumado de desejos, espantado consigo mesmo. Revolvendo-se em fluxos de luz, cor, som e aroma - todas as matérias-primas do Criador.
Escreveríamos um romance de mil páginas apenas com as palavras que suspiramos nessas noites. Nada nem ninguém nos vigia e é toda nossa a liberdade dos amantes voadores.
Tu e Eu, sem escrúpulos, prisioneiras da nossa pele, e em expansão infinita através da trama do Universo.
26-11-09
Vou imaginá-la com os olhos abertos, para que a realidade me socorra. Tem de ser denso mas quente. Transcendente mas carnal. Já sei.
O coração dela bate ao ritmo de Portishead.
Quero continuar. As minhas mãos levantam-se no ar como se me preparasse para tocar num enorme piano. Os dedos esticam-se e contorcem-se, buscando tocar a poesia líquida do ar. Os meus ombros arrepiam-se, num vazio ansioso. Vou imaginá-la com as mãos abertas, para que o mundo me possa agarrar. Ela está à minha espera no topo de uma montanha que escalou durante dias, sozinha e descalça. No entanto os pés dela permanecem intactos, como que por magia.
Pouso a caneta observando a minha sombra. Se eu imaginasse nestas paredes um enorme oceano, a minha sombra é tudo o que eu seria. E fecho as mãos cega de poder, de poder escolher ser apenas isso. Poder ser qualquer coisa.
Ela tem o cabelo caído sobre o rosto, e nada conhece acerca da Beleza que esperam que ela simbolize. Quero tocar mas tudo o que sinto aqui é a minha própria textura. Quero provar mas tudo o que tenho aqui é a minha própria saliva. Fecho os olhos para que a realidade não possa salvar-me nunca mais. Ela dançará comigo flutuando, para que nunca nos pisemos acidentalmente. A luz da manhã vai soltar fiapos brilhantes à nossa volta, e ela vai chorar comigo apenas de felicidade. Vamos passar as noites acordadas em demandas imaginárias. Como crianças perdidas. Nos olhos dela vou encontrar a selva e o lar.
Vou resgatá-la agora, deixando o escuro para trás. Charcos de poesia líquida para ela beber das minhas mãos. E hei-de encontrá-la, e vou amá-la, de olhos fechados e de mãos abertas.
Fico na cama, despida. Oiço os gatos vadios delirando na rua, a procurar esfomeados onde depositar a sua fúria sexual. Murmuro-lhes que às vezes mais vale esperar pela chuva gelada. Não vai chegar o nosso casulo. Não surgirão os olhos perfeitos que nos farão florescer. Não podemos continuar à espera.
Tapo-me com os lençóis até não ver um ponto de luz.
Até ao pôr-do-sol gememos, eternamente vadios, eu e todos os gatos.
Oiço as canções de amor dos outros e sorrio, feliz por haver quem ame. Estou de sol no rosto e bainha na mão. Não há canção para mim. Não faz mal. Eu sorrio ouvindo as dos outros, sozinha, triunfante de escuridão e desejo. A poesia diz-me para esperar. Que ficarei forte e maior. Que alguém vai querer segurar-me. Mas eu só quero que me larguem, que me soprem.
Porque o meu amor está no vento.
Está no brilho de todos os olhos.
E nas minhas asas ardendo na luz.
Está nos livros empoeirados.
No silêncio do beijo.
Nos pianos irrequietos.
E foge, para eu nao parar de o encontrar.
(Chovem beatas no meu telhado e há musgo a crescer em mim. As horas passam e fogem depois de me montarem como prostitutas bem ensinadas. Pequenas florzinhas brotam da humidade do meu corpo.)
Tenho a certeza de que não te lembras de quando adormecias ao meu lado e eu ficava a noite inteira a contar os teus cabelos, fios brilhantes de certeza. Brilhantes de promessas.
Às vezes gritavas comigo e eu apaixonava-me ainda com mais força pelos teus olhos. Doente.
Agora as noites são límpidas de sonhos e ninguém chora. Sinto falta das tuas lágrimas na minha cara, porque estavas perto. Tão perto.
(Queria alguém a chorar contra mim.
Alguém que arrancasse este musgo.)
Vieste de madrugada quando eu já estava sóbria.
As veias quase saltavam do teu braço, quase
rompiam a pele, tão inchadas e azuis. Eu acendi um
cigarro de mentol e apercebi-me de que o meu romance
não tinha futuro.
Pensei em Greene, pensei em Cunningham,
em Palahniuk, pensei no teu sexo vertendo os meus
sonhos. Mas nada.
As palavras junto de ti esvaíam-se em desejo.
Os teus lábios cheiravam a baunilha dentro
da minha cama e sorrimos até o sol raiar.
Os meus pés contra os teus pés. A pedalar o sono.
Amor Nocturno Subaquático