14/04/11
O Vizinho
Foram muitos os encontros à distância, eu encostava os meus lábios ao vidro e dois dedos húmidos de vergonhas. Ele jorrava fumo da boca e do nariz, olhava-me silencioso.
Momentos houve em que desejei os seus passos, o som do elevador decrépito, um cheiro de homem e tabaco. O seu fumo a subir-me pelas pernas acima, mais branco que o branco que sou eu, mais fumo que o fumo que sou eu. A sua língua, talvez, e uma barba de pai, a roçar-me nas virilhas, a ameaçar um açoite.
Pousada naquela janela, enrolando nos dedos uma madeixa de cabelo, afastando um fio de ouro da minha avó no qual chupava ansiosamente, perdi a minha inocência, o meu pudor, os meus fingimentos. De longe chegava-me o cheiro de uns braços, de umas mãos grandes como muros para me espicaçarem.
12/03/11
03/03/11
18/02/11
05/02/11
04/12/10
19/11/10
Passagem
Senta-se nas escadas e pensa em desejar.
Pondera, reflecte, mas não deseja.
A sombra desponta das fendas dos azulejos e atravessa-lhe o coração.
Ela pensa, estou quase a querer algo. Estou prestes a ser movida. E fecha os olhos mas o silêncio só lhe devolve o som dos ponteiros do relógio.
Ela pensa em desejar.
Pensa em abrir todas as portas à sua frente, ainda que sejam mil. Em abri-las todas de seguida como um foguete, numa fome interminável para chegar ao final. Ser consumida por uma febre tal que pretender não basta, é preciso correr.
Ela quer querer. Mas jamais alcançar.
Para passar pela vida de rompante
sem nunca olhar para os lados.
19/10/10
30/08/10
27/08/10
09/08/10
08/06/10
01/06/10
39ª Levitação
A sólida melodia de um piano ocupava o espaço da sala inteira enquanto as minhas pernas se abriam, conduzidas pelas mãos nos meus joelhos. Lembro-me de assistir a esse momento de fora, vibrando de depravação como um daqueles homens tristes que se escondem atrás de moitas.
Conseguia visualizar tudo, como se visto através de uma cortina rendada ao fundo da sala. Fazia tudo parecer ainda mais vulgar, ainda mais rasca, e isso deixava-me molhada.
Eu estava sentada a abrir as minhas pernas, e estava também escondida, atrás da cortina, a ver. Éramos duas de mim. Mas apenas uma sentia o calor a derreter a pele, a fome insuportável do corpo; a que estava a observar.
O piano roubava o oxigénio todo, enquanto me via soltar os braços e levantar-me, agarrada pelas coxas por umas mãos. Eu ficava suspensa. As mãos puxavam-me consecutivamente contra o outro corpo para me devorar. Por detrás da cortina rendada eu via a carne das minhas coxas por entre os dedos da outra pessoa, como que inchada, cheia de sumo. O meu corpo flutuava sem peso, apenas ligado pela púbis ao corpo desconhecido.
Não havia nada que eu precisasse de fazer, ou dizer, ou pensar. Eu estava lá, atrás da cortina, a sentir tudo, intocada. Sabendo-me demasiado pesada para algum dia levantar os pés do chão.
30/03/10
A Decisão
«O que se passa comigo hoje?»
Ela está sentada na cama. Os seus melhores anos viajam longe do olhar. Aprendeu cedo que as memórias conseguem quebrar os corações mais frígidos, mas que não é algo por que se deva choramingar. A mestria do silêncio encorpou-se nela com a voz da mãe, o chiar dos corredores, o eco dos cortinados. Ela coloca o dedo indicador sobre os lábios e diz shh, para não se atrever. Mas há um nó apertado que insiste em estrangular a sua garganta.
Ela não quer que ninguém lhe relembre da sorte que tem.
As mãos consolam-se mutuamente, esfregando-se numa trágica nostalgia. Lá fora, o vento não mostra piedade.
«Estou a perder a cabeça» sussurra, e lembra-se de há muito tempo numa tarde ter corrido atrás do seu chapéu pela rua fora. O vento despenteava as velhinhas na paragem do autocarro. E o sol brilhou descontrolado dentro dela como nunca, como nunca antes.
As mãos param e finalmente caem sobre o colo. Ela olha em volta para as paredes castanhas do quarto, e apercebe-se:
Está na altura de deixar o vento entrar.
23/01/10
Identidade
Cometi mais um erro hoje. A culpa é de não dormir. Espero que feches os olhos e ignores o bilhete que deixei por debaixo da porta.
No dia em que eu olhar para ti e não cair no abismo, eu vou saber que já não sou eu. Nesse dia, eu vou ver, impotente, afastada, a minha própria morte.
13/01/10
06/01/10
Deus, Pornografia e Fast-Food
Fará Deus ideia da quantidade de vezes que o seu nome é evocado em filmes pornográficos? Os momentos em que mais sou relembrada do nome do Senhor é enquanto assisto a pornografia. Não faço ideia do que isso possa significar. Mas não deixa de ser interessante. É como se a fé tivesse fugido das ruas, das igrejas, dos pelourinhos, e se tivesse escondido nos estúdios mal saneados onde oleadas vaginas saltam em cima de caralhos pulsantes. Tudo isto enquanto uma câmara filma, para que milhões e milhões possam desfrutar em privacidade de uma poderosa experiência religiosa.
Quando dou o primeiro gole, ela ainda costuma estar a fazer-se desentendida. Quando dou o último, já ela está a receber com um sorriso estupidamente infantil jactos de esperma por cima do seu peito.
A pornografia é uma coisa muito bonita. Faz-nos esquecer de toda a realidade, por ser tão completamente falsa. Nada daquilo satisfaz a nossa inteligência, mas também não chega a chatear, por estarmos tão tesos. No fundo, vendemos o nosso bom gosto por foda. Vendemos a nossa moral. O nosso sentido crítico. A nossa sensibilidade humana. ...E depois vimo-nos, mais cedo ou mais tarde. E depressa olhamos para o lado, enojados.
As raparigas da pornografia partem-me o coração. Quando mais inocentes parecem, mais porcas são, e não há nada que possamos fazer para nos esquecermos disso. Depois de termos visto uma pessoa de quatro a levar com tanta força que os olhos se lhe entortam, não conseguimos propriamente voltar a olhar para a pessoa sem essa imagem presente. Primeiro, porque não as conhecemos fora desse contexto, e segundo, porque mesmo quando elas parecem estar a demonstrar um pouco de quem são, esse momento dura dez segundos até à cambalhota seguinte. Por isso, no fundo, pensamos nelas como seres humanos de dignidade descartável. E esta dignidade pode durar apenas tanto tempo como um diálogo iletrado acerca de marotices.
Aparte a pornografia caseira, parece-me sempre idiotia pretender representar num filme porno um casal que busca reavivar a chama no seu longo casamento. Isto porque é uma máscara insustentável; quem está ou esteve casado sabe muito bem que não é assim. Para além de todo o acto se assemelhar a uma demonstração de ginástica acrobática, não há um único olhar, uma troca de palavras, nem uma pausa para respirar. Nada. Ou talvez estejam com demasiada pressa, por os miúdos estarem quase a voltar da natação.
Quando dou a primeira passa, ele ainda está só a olhar para ela com ar de imbecil ostentando a voluptuosa protuberância nas calças. Quando dou a última passa, já ele bufa de alívio por aquela merda ter chegado ao fim. Sacode o membro dorido com o resto do líquido sagrado que sela o fim da cerimónia.
Ao fim e ao cabo, não temos desculpa para ver aquela porcaria. Nem as gajas são assim tão boas, nem as imagens as que queremos ver. Vemo-lo porque a solidão é rasca, e nos leva a vasculhar no lixo. Vemo-lo porque a pornografia é a fast-food do sexo; mata a fome momentaneamente, é rapidamente engolida e só pensamos no quão repugante é depois.
Há quem se sinta mal. Há quem se sinta culpado. Eu encho outro copo e abraço a natureza humana.
06-01-10
